RESPIRANDO O RESPIRAÇÃO | SALA DE JANTAR

A exposição virtual RESPIRANDO O RESPIRAÇÃO traz para o público as intervenções realizadas na Casa Museu Eva Klabin desde 2004, mas de uma forma original e bem distinta daquela apresentada usualmente ao visitante.

Além da experiencia ser digital, em função da situação vivida neste momento em que o museu se encontra temporariamente fechado por causa da Pandemia de Covid19, as intervenções não são apresentadas por edições, como quando realizadas na Casa Museu, mas sim de acordo com os ambientes onde aconteceram.

Esse deslocamento implica na visão não de um conjunto de intervenções de um mesmo artista em um determinado momento, mas na percepção da criação de diferentes artistas, em diferentes momentos, para um mesmo espaço.

E como o Projeto Respiração trata exatamente da possibilidade de novas leituras do espaço e da coleção da Casa Museu Eva Klabin, acreditamos que essa exposição virtual é capaz de oferecer uma nova forma de fruição deste projeto para o nosso público.

A cada módulo da exposição virtual RESPIRANDO O RESPIRAÇÃO, é escolhido um ambiente da casa museu. O de hoje é a Sala de Jantar de Eva Klabin.

O PROJETO RESPIRAÇÃO

Concebido em 2004, o Projeto Respiração tem por objetivo criar intervenções de arte contemporânea na Casa Museu Eva Klabin, ideia surgida a partir da vontade de estabelecer outras camadas de leituras do acervo, que é basicamente de arte clássica.

Como lidar com um acervo muitas vezes engessado pela própria circunstância de sua criação, que foi a de deixar para a memória coletiva da sociedade brasileira uma coleção que é um resumo dos principais momentos da história da arte clássica, circunscrito em uma ambiência de casa-museu que reflete o gosto pessoal e os hábitos sociais de sua instituidora?

A resposta a esse desafio foi convidar artistas capazes de estabelecer outras camadas de leitura do acervo, criando fricções de linguagens entre a arte consagrada do passado, incorporada ao patrimônio, e as manifestações contemporâneas. Esses atritos são provocados não só pelo acervo ou pela história da arte, como também por outras questões específicas de uma situação de casa-museu. Essas vão desde o fato de as obras estarem expostas em um ambiente doméstico, em oposição a um ambiente tradicional de museu, até outras implicações mais sutis como a relação entre o que é pessoal e o que não é socializável, entre o espaço da intimidade de uma residência e o de um ambiente de um museu de representação coletiva.

O objetivo é que o artista convidado utilize como rastilho estético a sua leitura dos espaços vazios – dos espaços que existem entre as coisas – e que nos permitem perceber as coisas. É uma proposta de trabalhar com as zonas adormecidas, silenciosas e de descanso, que não são imediatamente perceptíveis, mas são o que garantem a nossa percepção do espaço. Dessa forma o artista está criando novas relações espaciais no acervo da casa museu, oxigenando, revitalizando e atualizando o sentido dessa coleção. Por isso: Respiração.

A SALA DE JANTAR

O mobiliário medieval dá austeridade ao ambiente, composto de peças francesas do século 15, período gótico tardio. Sobressaem-se o revestimento das portas, a boiserie de cinco nichos transformada em vitrine para abrigar a prataria predominantemente inglesa e o grande arcaz gótico. Sobre este móvel, encontram-se porcelanas da Companhia das Índias, padrão “folha de tabaco” e dois imponentes candelabros de prata com marcas e contrastes de Robert Garrard, prateiro londrino do século 19.

Iluminada por lustre holandês de bronze, a mesa colonial mineira tem ao seu redor dez cadeiras de espaldar alto, forradas com tecido de estamparia heráldica. A toalha de mesa é rosa, bordada com flores brancas, realçando o serviço de fina porcelana de Limoges, o faqueiro inglês de prata dourada e os cristais Baccarat, lembrança dos jantares de Eva Klabin.

Sobre a pequena cômoda de porta dupla, a escultura de madeira, Grande Dame, também do período gótico tardio, representa uma figura de castelã, que traz na cabeça um toucado da Borgonha.

Nas paredes, dominam mestres holandeses e flamengos do século 17, o “século de ouro da Holanda”, que propiciou às artes o desenvolvimento da pintura de cavalete, adequada para decorar as casas dos ricos burgueses. O maior quadro, na parede do fundo, é o retrato de um Magistrado rodeado de livros, de 1654, com assinatura de Govaert Flinck (1615-1660).

Chama a atenção o grande tapete floral, tipo Kirman, rico em detalhes e colorido, com assinatura e data dentro de um cartucho.

EDUARDO BERLINER | A PRESENÇA DA AUSÊNCIA | RESPIRAÇÃO 20

Eduardo Berlirner foi o primeiro pintor a participar do Projeto Respiração. Nos anos anteriores optou-se por trabalhar com instalações por serem elas mais facilmente absorvidas dentro da Casa Museu, cujas paredes são totalmente preenchidas por pinturas.

A presença de um pintor possibilita uma expansão do pensamento sobre o rompimento com a representação vista na arte pós-neoconcreta, questão que fundamenta os interesses do curador do projeto. Ainda além, a obra de Berliner evidencia, mais do que a presença através da representação, uma ausência. Seu trabalho revela a potência da arte pois manifesta a metafísica imanente das coisas.

A escolha do artista pela universo da colagem não busca o acúmulo de informações, mas evidencia o que desaparece quando as imagens são  sobrepostas. Trata-se de uma estética do acidente, da metamorfose dos corpos conectados após um desastre – onde se vê a falta do que existia anteriormente. É juntamente na radicalidade dos elementos visíveis que o artista encontra a aparência fantástica da realidade.

Sua ação evidenciou um processo já vivenciado na Casa Museu, onde elementos das mais distintas épocas e lugares coabitam em uma mesma sala. O olhar do artista proporciona a metamorfose dos muitos detalhes presentes no acervo, pois assume o caráter expressivo, e não representativo, da arte.

Fotos: Mario Grisolli


NUNO RAMOS | PERGUNTE AO | RESPIRAÇÃO 8

O encontro da obra de Nuno Ramos com a coleção e com a casa de Eva Klabin produziu uma tensão visual positiva e ousada na trajetória do Projeto Respiração. Na intervenção Pergunte ao, por exemplo, o que se dá a ver é o que esconde a obra, e o que esconde a obra faz com que ela se veja no lugar de ser vista. A parte “refletiva” do espelho revela a imagem da obra para ela mesma e a parte opaca do espelho nos devolve o mistério da visibilidade na forma de uma pergunta. Há nessa inversão, provocada por Nuno, a tentativa de explicitação do processo de consciência das coisas: pergunte a si mesmo no silêncio/cegueira das imagens e encontre você mesmo a sua resposta.

Na série das Vitrines, as esculturas e os objetos da casa falam. Nuno cria textos especiais para a escultura de autoria anônima de Santa Teresa de Ávila do barroco austríaco, para o relógio Luís XIV, para as poltronas da Sala Inglesa e para a mesa da Sala de Jantar. O artista não quer trazer a obra de arte para dentro do circuito da vida, nem há qualquer proposta mimética na sua intencionalidade. Ao contrário, propõe nos levar para dentro do universo da arte e, mais uma vez neste caso, através de uma interdição: os objetos da casa-museu estão aprisionados dentro de uma redoma (fina ironia com as vitrines dos museus!), que possibilita que estabeleçam monólogos e diálogos. A visibilidade nua é encapsulada pela retórica, e a imagem se faz verbo.

Ao juntar, na superfície da percepção, palavras e imagens, ele está explicitando que quando lidamos com a irredutibilidade entre o mundo das imagens e das palavras, não podemos equacionar a realidade através da causalidade. Palavras não são nem causa nem efeito das imagens e tampouco imagens são efeitos ou causa das palavras. O que nos resta são associações que surpreendem a realidade do mundo no pulo. E surpreender esse momento do salto é do que trata a obra de Nuno Ramos. Não há como explicá-la; resta-nos desvendá-la através da identificação muda: Nudez e mudez.

Trecho da intervenção sonora Gags | Texto e voz: Nuno Ramos | Fotos: Vicente de Mello


BISPO DO ROSÁRIO | FLUTUAÇÕES | RESPIRAÇÃO 22

Houve um certo incômodo em escolher o Bispo do Rosário  como participante do Projeto Respiração. Espalhar suas obras pelo museu aparentava uma espécie de distorção da integridade que lhe era natural, já que eram todas originalmente guardadas pelo artista na cela da Colônia Juliano Moreira onde fazia seus objetos. Entretanto, sua cela funcionou como uma célula. Foi a partir da multiplicação dessa unidade mínima que surgiu um corpo robusto, o conjunto de suas obras. Elas são um cosmos formado, em cada particularidade, pelo todo indivisível.

Bispo do Rosário, que era considerado enfermo pela medicina, encontrou-se lúcido no meio das artes. Mas ele não produzia sob a preocupação de estar fazendo arte. Tal insígnia foi dada posteriormente, pelos outros, já que a arte fundamenta-se na inulitidade dos objetos que são significativos para nosso espírito. Arte, como dito por Tarkovski, trata-se de uma força de cunho espiritual que consegue ultrapassar a ausência de espirutalidade dos homens de uma época.

É nesse sentido que podemos aproximar Bispo do Rosário e Eva Klabin. Ambos viveram no século XX e desenvolveram um interesse espiritual pela arte e pelo tempo sob o impulso pelo colecionismo. Ela, colecionadora de um importante acervo de arte clássica no Rio de Janeiro. Ele, colecionador da miséria e de tudo que há no mundo, pois apresentaria seu inventário na hora de sua morte.

Ao mesmo tempo, foram figuras completamente antagônicas. E essas inegáveis e latentes diferenças econômicas e sociais foram evidenciadas na exposição Flutuações. Apesar de compartilharem os mesmos espaços, marca-se um contraste entre as obras do Bispo do Rosário, que permanecem suspensas, e a colelão de Eva Klabin, fixa no chão. A intenção da curadoria é evidenciar os encontros entre tais personagens sem esquecer de suas singularidades.

Fotos: Mario Grisolli


CARLITO CARVALHOSA | REGRA DE DOIS | RESPIRAÇÃO 13

A Casa Museu Eva Klabin é um espaço em suspensão. Fora do tempo: um tempo de espera. A ausência hoje habita a casa, engessada numa ordem que o colecionismo impôs. Pergunto-me se o primeiro impulso de Carlito Carvalhosa diante da coleção e da casa, ao comentar que se surpreendia de que deveria haver – mas não encontrava – uma tensão entre a natureza distinta dos objetos e a ordenação imposta a eles pela colecionadora porque tudo parecia se igualar, não seria a percepção da presença da ausência.

Como “competir”, então, com a ideia do acúmulo de formas quando a obra de Carlito Carvalhosa trata da dissolvência delas? A solução que encontrou foi a de que um mesmo objeto banal: um copo, por exemplo, se repetiria e se acumularia de tal maneira e em tal quantidade que, ao invés de dissolver as diferenças, as destacaria.

A idéia inicial dos copos evolui e ele encontra uma solução fantástica. Eles não são mais iguais, mas diferentes entre si, se espalham pelo chão e se transformam também em suportes que elevam os móveis centrais da Sala Renascença, que recebe sobre o chão um tapete feito de luzes fluorescentes, criando uma sensação de suspensão e quase levitação.

Carlito Carvalhosa leva a luz para outros ambientes de maneira intensa, para a sala Inglesa e para a passagem entre a Sala de Jantar e a Sala Chinesa, como se quisesse cegar pelo excesso de luz, desfazendo a profundidade do espaço e nos permitindo experiências mais próxima do fluxo do tempo, que acontece no nosso corpo interior.

Foto: Mario Grisolli


DANIELA THOMAS | SUBSTITUIÇÕES | RESPIRAÇÃO 11

Daniela Thomas propõe que imaginemos a obra na sua ausência. Assim como Eva Klabin retira de circulação as obras do mercado para aprisioná-las na sua coleção, Daniela Thomas retira algumas obras do museu para prender a nossa atenção, preenchendo o espaço-visão da casa com o murmúrio-tempo das vozes, que descrevem as obras retiradas.

Fotos: Mario Grisolli | Voz: Lula Wanderley


CLAUDIA BAKKER | PRIMAVERA NOTURNA | RESPIRAÇÃO 6

Primavera noturna é uma obra sobre a germinação noturna. Esse trabalho, assim como o conjunto da obra de Claudia Bakker, trata do devir feminino como potência da transformação. Primavera noturna estabelece forte correspondência (aproximação de tempos) com o culto da deusa mais querida e venerada da Grécia antiga, a deusa agrícola Deméter, responsável por todas as formas de reprodução da vida, mas principalmente da vida vegetal, cuja forma de expressão era a beleza.

A fina sensibilidade da artista cria uma presença visual que enfatiza materializando os circuitos do pensamento, da invenção e do desejo, através de um sistema de entrelaçamentos de tubos de pano cor de rosa, como raízes poéticas ascendentes, que, ao unir as cadeiras (os personagens da vida de Eva Klabin), vão em direção ao lustre central da sala em busca da luz, que espalha um tom rosado pelo ambiente, gerando uma atmosfera de harmonia e beleza, tal como Deméter necessitava para desencadear a abundância da colheita: primavera noturna, quando a potência do pensamento se iguala à potência da matéria.

Claudia Bakker reafirma essa sua intenção quando espalha pela sala de jantar livros de arte trazidos da biblioteca da colecionadora e estabelece uma cumplicidade com ela, ao colocar sobre a mesa, servido como um alimento, um único livro de arte que traz de sua biblioteca particular, aberto na página com a reprodução da imagem de uma das onze ilhas da Biscayne Bay circundadas por tecidos cor-de-rosa, de Christo e Jeanne-Claude, remetendo à ideia de uma vulva gigante flutuante feita de pinheiros. Assim, através dessa imagem, a artista faz emergir a lembrança de Deméter, deusa da reprodução da vida, desencadeando no ambiente da sala as energias imateriais da sexualidade e do pensamento, indispensáveis nos processos criativos que envolvem arte e colecionismo.

Foto: Vicente de Mello


CHELPA FERRO | ESTABILIDADE PROVISÓRIA | RESPIRAÇÃO 3

Na intervenção do grupo Chelpa Ferro foi criado um contrate muito forte com a casa-museu e isso me levou a refletir que esse contraste tem a função pedagógica de evidenciar uma questão de maior importância, que ajuda a elucidar a dificuldade em compreender a arte contemporânea: enquanto a arte já consagrada está preocupada com os fins, a arte contemporânea está preocupada com os meios. As obras produzidas nessa situação respondem a uma ansiedade do contemporâneo que é a incerteza.

O que os artistas convidados pelo Projeto Respiração oferecem é o “ensaio” da imagem como fim em si.  A proposta do Chelpa Ferro se insere com exatidão no pensamento da curadoria. Estabilidade Provisória é uma quase-ilustração dessa ideia. O estabelecido, o consagrado, estremece diante do lúdico. Jorge Barrão, Luiz Zerbini e Sergio Mekler propõe o equilíbrio na “instabilidade” como forma de “estabilidade”.

A Sala Renascença, o salão principal, por exemplo, ficou intocável, a não ser para um olhar mais atento que pode descobrir uma tulipa de cerveja pela metade, estrategicamente esquecida por um visitante descuidado sobre a redoma que cobre um vaso em maiólica de Urbino do século XVI. Já na Sala Inglesa, deparamo-nos com uma situação real de invasão de um segurança irresponsável que decide botar em risco a casa.

A intervenção do Chelpa Ferro tem a qualidade do humor e da descontração características de sua obra, ao mesmo tempo em que nos apresenta uma crítica caustica ao mundo atual, que busca se cercar o tempo todo de garantias de estabilidade, protegendo-se do intempestivo e tentando controlar as forças do devir.

Vídeo: Chelpa Ferro


JOSÉ BECHARA | SAUDADE | RESPIRAÇÃO 9

Quando convidei Bechara para o Projeto Respiração foi por causa do seu projeto A casa, realizado  em Faxinal do Céu (PR), com curadoria de Agnaldo Farias e Fernando Bini.  Bechara foi convidado como pintor e saiu da experiência com escultor. Bechara não conseguiu pintar, mas transformou a casa que estava ocupando em um manifesto plástico visual em que os móveis da casa foram expelidos pelas janelas e portas. Através desse ato de revolta formal e sígnica, o artista conseguiu expandir e requalificar o sentido de sua obra.

Ao contrário do que se poderia imaginar de imediato há uma forte relação entre suas ”pinturas” feitas a partir de lonas de caminhão, peles de animais ou processos de oxidação, e o projeto A casa. “Desviar uma determinada matéria de seu destino” é a operação formal e conceitual que Bechara propõe quando lonas de caminhão abandonam a função à qual estavam destinadas e passam a operar no registro da arte como passagem do tempo; ou quando a casa, feita para acolher, se revolta contra seu destino e expele para fora o mobiliário, subvertendo a relação continente/conteúdo.

Da mesma maneira, a proposta curatorial do Projeto Respiração é buscar desvios a partir de uma situação de casa-museu de colecionador. A intervenção proposta por Bechara é resultado de uma conversa em que comentei que tinha a sensação de que Eva Klabin não havia morrido, mas que um belo dia decidiu ir embora, bateu a porta e deixou a casa tal como estava. Bechara, então, imaginou que a casa sentia saudade de sua antiga proprietária. Paredes, portais escadas e armários embutidos se multiplicariam e preencheriam o vazio deixado por ela. Através da intervenção Saudade de Bechara é como se todos os espaços da casa ficassem prenhes de vida própria. Tudo passa a reverberar na imaginação fabular e a casa adquire autonomia. Os objetos adquirem vida. O artista cria uma fábula barroca em que o mundo fala. O resultado, uma estética do excesso. O método, a metamorfose.

Foto: Zeka Araújo


LAURA LIMA | CINEMASHADOW SEGUNDO | RESPIRAÇÃO 16

Não podemos ter nem cerimônia nem inocência para entrarmos em contato com a obra de Laura Lima. Ela é crua. Crua como a carne dos corpos vivos com que trabalha. A presença da carne vida como recusa radical da representação. Laura Lima esvazia a representação como ilusão ou mimetismo para substituí-la por uma rede de conteúdo e expressão, criando coerência de articulações capazes de nos colocar frente a frente com o mistério do mundo, sem cerimônia ou inocência, indicando-nos: eis aí o caos!

Quando começamos a conversar sobre a intervenção que ela gostaria de fazer na 16ª edição do Projeto Respiração e ela contou que seria algo como o Cinema Shadow, apresentada nas Olimpíadas de Londres no Projeto Rio Ocupation London, a imagem que me veio de imediato foi a de saturação do momento. Fiquei surpreso quando ela me disse que o título seria Segundo. Surpreso pelo duplo sentido contido nessa palavra, que tanto pode ser o segundo de uma série numérica quanto segundo no sentido de marcação do instante cronológico, que para mim é saturação do momento; é o instante. E essa ideia se fechava com a percepção que eu tinha da sua obra, que trazia embutido aquilo que Virginia Woolf definiu como “colocar aí tudo e contudo saturar”.

Cinema Shadow segundo indica a irredutibilidade do momento pelo transbordamento e transparência da intensidade que propõe. É construção de imagens que guardam do cinema a proposição de que a realidade só não é ilusória quando apresentada na sua irredutibilidade intensiva dos fluxos que a compõem, criando uma passagem direta entre o perceber e o sentir.

Carnimagem ou fleshimage é por onde o mundo resvala; por onde o mundo se esconde; e a artista, alquimista que é, apresenta a imagem da carne e a carne da imagem, desfazendo o mistério que se apresenta como mistura do que não se quer e apresentando na sua transparência a lucidez e a clareza daquilo que se percebe e que se sente.

Trecho do vídeo CINEMASHADOW SEGUNDO de Laura Lima | Participações: Zaba Azevedo, Emanuel Aragão e Maurílio de Souza | Cinegrafista: Tay Nascimento


REGINA SILVEIRA | INSOLITUS | RESPIRAÇÃO 21

Regina Silveira trouxe à Casa Museu Eva Klabin suas investigações sobre o insólito e o maravilhoso como forças poderosas que fazem parte do tempo fragmentado da contemporaneidade. Para a artista, assume-se na atualidade uma postura avassaladora e impensada na apreensão dessas dimensões que resultará no futuro em uma consequência nefasta. A exposição Insolitus trata desse tempo de espera inquietante.

Há, na Sala Renascença, a obra Dark Swamp, um ovo negro (ainda não chocado) de 1,80 m, cercada por um pântano de crocodilos. O avistamos sob um som misturado de helicópteros e mosquitos, vindos da obra Fábula II no Hall de entrada. Na Sala Verde encontramos Mutante II, um carrinho de chá em  processo da metamorfose. Na sala de jantar, a ação já está completa. Um pelo negro cobre toda mesas e cadeiras em Mutante I.

Para a curadoria, Insolitus é, ao mesmo tempo, a pulsão negativa que surge em um mundo de incertezas e a esperança, pois é a partir do impacto da estranheza que acontece um chamamento para a ação. É o incômodo que evidencia o caminho pérfido que o mundo está trilhando e o desperta. Tal leitura não reduz a obra da artista a uma questão político-partidária, mas ressalta a generosidade de sua ação.

Regina Silveira explicita elementos que fazem parte da proposta do Projeto Respiração, que é desestabilizar os códigos do museu e retirá-lo do conforto doméstico da casa. É através dessa perturbação que podemos encontrar novos equilíbrios.

Fotos: Mario Grisolli


JOÃO MODÉ | INVISÍVEIS | RESPIRAÇÃO 10

Com a intervenção denominada Invisíveis, João Modé nos oferece obras que trabalham no limite entre os mundos da presença material e imaterial que emana dos objetos da coleção e entre os tempos do objeto musealizado e de quando esses objetos eram parte da vida cotidiana da casa.

Sua primeira ação foi escolher um dos ambientes da casa para habitar e o denominou Cafofo. Sentiu a necessidade de conviver na fundação não só como museu, mas também como residência. Escolheu ocupar um dos sótãos que está fora do circuito de visitação e integrá-lo ao circuito, criando um espaço de suspensão onde o visitante pode experimentar um tempo menos acelerado e de contemplação. Nesse lugar, Modé se permitiu conviver com a ambiência da casa para se permitir novas paisagens mentais.

Com o trabalho Lusco-fusco cria uma atmosfera de luz limítrofe entre o dia e a noite, que é o mesmo lugar da sutil percepção do momento do “entre”, quando uma coisa deixa de ser o que é para ser outra. Essa opção estética fica ainda mais evidente na obra Alma [de Santa Teresa de Ávila], quando ele simplesmente desloca a posição da escultura barroca, posicionando-a de costas no alto da escada, de forma que a luz do abajur crie – para o olhar daquele que sobe a escada – um halo luminoso em torno dela, revelando o seu interior, que é oco.

Ao empreender uma ação sutil e quase invisível de deslocamento e descolamento da percepção, muda a relação sensorial com o ambiente e conserva a arte como a experiência capaz de preservar no homem a dimensão espiritual.

Fotos: Vicente de Mello


ROSÂNGELA RENNÓ | CÍRCULO MÁGICO | RESPIRAÇÃO 18

O que Eva Klabin nos apresenta e nos convida a conhecer na sua casa-museu é o momento final da “captura” de um objeto de arte quando ele é retirado do mercado por meio da compra e aprisionado no círculo mágico – ao qual se refere Walter Benjamin no seu texto Desempacotando minha biblioteca.  A partir desse momento a obra de arte passa a ficar congelada numa existência fora do tempo das trocas comerciais. No caso específico da Casa Museu Eva Klabin, esse movimento se intensifica na medida em que as obras são conservadas na residência em que Eva Klabin viveu e conviveu com sua coleção.

O que Rosangela Rennó propõe é criar um novo circulo mágico com os objetos da coleção, fazendo com que revelem aquilo que está por debaixo do que vemos. Cria um dispositivo sonoro-luminoso que, através do som, nos faz ver o que está por debaixo da coleção, desencadeando de forma bem-humorada a fala da “memória” do objeto a partir de sua história enquanto objeto e a sua inserção no conjunto mais amplo da coleção. A voz é o elo que nos une a eles. Seus passados se revelam na medida em que se fazem presentes aos nossos sentidos. Como num clarão, evidenciam a concomitância do passado e do presente na atualidade, inconformados de serem prisioneiros da visibilidade que os silencia na história contada pela história a arte. Eles desejam ser a voz viva da história da sua condição. É como se ela atribuísse a eles o poder de revolver a superfície da coleção Eva Klabin e fazer emergir de suas histórias o tempo denso da atualidade que suas existências impõem através de suas presenças. O passado deixa de ser latente para ser explicitamente real. Esse é o círculo mágico de Rosangela Rennó. Esse é o círculo mágico do Projeto Respiração.

Trecho do vídeo Círculo Mágico de Rosângela Rennó | Textos: Rosângela Rennó | Vozes: Rosângela Rennó e Celso Junto |Filmagem: Mario Grisolli


OPAVIVARÁ! | BOCA A BOCA | RESPIRAÇÃO 24

Na 24ª edição do Projeto Respiração foi o coletivo OPAVIVARÁ! que fez a festa de comemoração dos 15 anos do Projeto RESPIRAÇÃO.

Uma das qualidades do coletivo é que eles resignificam as noções entre o público e o privado. O território da Casa Museu Eva Klabin e do Projeto RESPIRAÇÃO é absolutamente condizente com esse espírto porque propõe uma ação numa instituição museológica de caráter público, mas que conserva  as caracterísitcas de uma residência, que é eminentemente o território do privado.

A ação do OPA adequou-se perfeitamente ao RESPIRAÇÃO porque, assim como o projeto pretende trazer de volta o fluxo da vida que foi interrompido quando a casa se tronou museu, a ação do OPA questiona, transgride e recontextualiza os valores estabelecidos e convencionados pelas instituições museológcas.

Seu trabalho se alinha com as questões levantadas pela ruptura pós-neoconcreta, quando se buscou uma aproximação da arte com as esferas da vida. Artistas como Lygia Clark,Lygia Pape e Hélio Oiticica se aproximaram da dimensão concreta da realidade e desenvolveram trabalhos que dependiam de uma dimensão realcional para que a obra acontecesse.

A energia criativa do OPAVIVARÁ! se pauta nesta mesma dimensão, buscando um carácter convidativo e sedutor, atraindo as pessoas para experiências coletivas que evocam o prazer cotidiano comumente menosprezado.

O coletivo assume uma postura festiva e alegre, que é típica do que se convencionou como sendo o bom humor carioca, como forma de evidenciar as relações interpessoais e interespaciais nas grandes cidades. Pela Casa Museu espalharam-se obras que evocavam tais tensões. Em Pornorama, por exemplo, um grande dossel coletivo ocupou a Sala Renascença e os visitantes eram convidados a observarem o acervo de outro ângulo, deitados ou podiam  também simplesmente relaxar, e nessa postura, desafiar o tempo rápido da vida contemporânea.

As espreguiçadeiras multi evocaram a vida da cidade, que é solar, numa casa imersa na penumbra; o Sofaraokê, trouxe de volta para a casa a boemia vivida nas próprias noites da Eva Klabin. Significativa foi a obra Panis et Circenses, uma bolha que oxigenava  a sala de jantar em um processo semelhante ao de uma respiração. Ela possibilitava que a mesa da Sala de Jantar, antes musealizada e destituida de sua função original, voltasse a ser utilizada como local para se alimentar, só que agora protegida pela bolha que impedia que os detritos de comida se espalhassem pelo espaço antissetico do museu, necessário para a preservação das obras de arte. E no Quarto de Dormir, o Globo espelhado espalhava sua luz fantasiosa, criando uma atmosfera festiva de sonho, alegria  e imaginação.

Vídeo: Mariana Bley


KRAJCBERG | RESPIRAÇÃO KRAJCBERG | RESPIRAÇÃO 23

Franz Krajcberg foi um artista assombrado por dois tipos  de destruição. A primeira diz respeito àquela provocada pela guerra. Em sua experiência de vida passou pela Segunda Guerra Mundial, e dentro desse contexto, perdeu família e casa. A segunda, diz respeito à natureza. Ele a viu sendo continuamente ameaçada e desmantelada quando fez viagem pelo Brasil, onde se estabeleceu e adquiriu cidadania.

A exposição promovida pelo Projeto Respiração se configura entre três questões. A primeira é sobre o nome dessa edição. Por que Respiração Krajcberg? Pela primeira vez uma exposição recebe o próprio nome do projeto. Isso ocorre em razão da eficácia da palavra “Respiração” quando vinculada a um artista que se dedicou à defesa do meio ambiente. Preservar a natureza é, de certo modo, possibilitar o direito à vida e à respiração.

A segunda questão é: Qual seria o território e a nacionalidade de Krajcberg? A pergunta se dá através da intrigante fala do artista, que diz: “Nunca a natureza me perguntou de onde eu vinha, se era naturalizado, qual a minha religião. Isso me deu grande alegria”. Tal frase surge da dificuldade que Krajcberg tinha de ser visto como brasileiro no país que escolheu para si. Curiosamente a natureza, elemento central para a história da arte brasileira, é o lugar onde ele se encontra. Assim, para a curadoria, é justamente pela paisagem que Krajcberg encontra-se como parte do Brasil.

A terceira questão faz referência ao Manifesto do Rio Negro do Naturalismo Integral, que foi redigido por Pierre Réstany na viagem que fizeram juntos pelo Rio Negro. Na leitura do manifesto nota-se um distanciamento da ideia de representação em favor de um realismo pautado radicalmente no real, e não no metafórico. Em uma exaltação da natureza amazônica, o naturalismo integral pauta as experiências de Krajcberg, que utiliza elementos vindos da natureza em sua obra, cujo sentido profundo é a preservação do Bioma amazônico, fundamental para a sobrevivência do planeta.

Fotos: Mario Grisolli |Imagens de queimadas: Frans Krajcberg | Música: Canticum Naturale, Edino Krieger, 1972 – Philharmonisches Orchester Südwestfalen – Regência: Edino Krieger – Soprano: Evi Zeller